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2.11.09

Mr.Dheo

» ENTREVISTA



1 - Porque é que o teu tag é Dheo?

Não há uma grande história, basicamente pensei em letras que gostava e na melhor forma de as unir. Depois, e dentro dos possíveis, que fosse um tag difícil de ver repetido em qualquer lado.

2- De onde veio o Mr?

O Mr. foi uma brincadeira de amigos que acabou por ficar agregado ao Dheo, por volta de 2003.



3 - O que é que tentas mostrar ao mundo com as tuas peças?

Eu pinto para mim e por isso a minha maior preocupação não é mostrar ao mundo o que quer que seja. Agora, se escolho a rua como suporte é natural que também queira que a minha arte seja vista e interpretada caso contrário pintava jarros de flores em telas e mantinha-as em casa. Cada peça que faço tem um conceito bastante forte por trás, quase sempre social, e faz sentido escolher a rua porque é uma forma de chegar a qualquer extrato social, qualquer idade ou raça.

3 - Porque é que começaste a pintar?

Eu desenho desde muito novo mas nunca estudei Artes, acho que nunca pensei fazer desse "hobbie" vida porque sempre vi a pintura como óleo ou acrílico e isso nunca me puxou. Quando descobri o graffiti senti uma identificação total e pela primeira vez tive necessidade de explorar esse gosto que tinha de uma forma mais séria. Começei sozinho, com 15 anos, e nunca mais parei.



4 - Qual é o estilo em que mais te encaixas?

É difícil responder a essa pergunta. Quem não conhece a fundo o meu trabalho possivelmente diz que faço um trabalho realista. E faço-o de facto, é algo que pela complexidade e dificuldade me atrai, para mim é um grande desafio. Mas o meu principal objectivo é ser o mais completo possível, continuo a fazer lettering em todas as frentes e outro tipo de abordagens que não se encaixam no realismo, por isso tenho alguma dificuldade em me incluir num determinado estilo. Acho que acabo por ter o meu próprio por muito que não tenha criado rigorosamente nada. E quem o diz mente, tudo o que vês em Portugal que quem não estuda durante anos graffiti apelida de "inovador" já foi feito e explorado.
O que se pode fazer é dar um cunho pessoal, trabalhar esses estilos de uma forma diferente e é isso que eu procuro.

5 - No inicio, quais eram os teus "ídolos"?


Felizmente durante estes 9 anos já conheci e pintei com todos os writers que admirava quando comecei. Nesse sentido sinto-me um priviligiado. É normal que alguns te desiludam, outros te surpreendam, mas cada um é como é e de toda a gente que conheces consegues sempre tirar algo de positivo. Posso falar-te de dois nomes, o Caos que hoje é um grande amigo e com quem partilhei das maiores experiências de graffiti até hoje, e o Exas que para mim sempre foi um génio e que reforçou ainda mais essa minha visão quando o conheci e pintei com ele.



6 - Se te dessem à escolha as seguintes opções qual escolherias e porquê: Fazeres um trabalho e seres recompensado monetariamente ou pagares o material do teu próprio bolso e fazeres algo a teu gosto?

Essa é aquela pergunta em que os writers portugueses não são sinceros porque se forem não estão a ser os "verdadeiros". E depois enterram-se nas entrevistas a responder na primeira pergunta "faço ilegal porque graff é isso, é pintar na street contra o sistema" e na quinta "no futuro gostava de viver do graff".
Ninguém rejeita pintar por dinheiro, desde que veja o seu trabalho valorizado e respeitado, e quem diz que não o faz é grande tanga. Conheço writers que mudam de tag quando fazem trabalhos para não assumirem esse lado. Para quê? Ninguém deixa de ser "verdadeiro" por fazer trabalhos e ganhar dinheiro com isso, desde que se mantenham na rua activos e a fazer o que gostam. Se são convidados para fazer trabalhos é porque evoluíram na rua durante muitos anos, porque gastaram muito dinheiro do próprio bolso para pintar na rua, porque foram "verdadeiros" o suficiente.

Agora é preciso é esperar que os trabalhos cheguem e não ir à procura deles, porque não é com 10 peças na rua que se dignifica o graffiti a um nível profissional,e é por isso que me faz confusão ver miúdos a fazer trabalhos e exposições e dar entrevistas completamente verdes e a dar uma imagem negativa do graffiti. É preciso pintar muito na rua, durante os anos quefor necessário, trabalhar e evoluir e depois sim, aceitar quando vos convidam para um trabalho. Ninguém quer trabalhar no Pingo Doce e fazer graff ao fim-de-semana só para se manter "verdadeiro" quando pode pintar todos os dias e ganhar dinheiro com isso.

7 - Achas que já chegaste ao "ponto alto" do graffiti ou achas que ainda tens muito para dar ao meio?

Acho que nunca vou chegar ao "ponto alto", se algum dia pensar que cheguei posso arrumar as latas e ficar em casa, porque com essa mentalidade não serei ninguém. Tenho muito para dar, muito para aprender,muito para evoluir, muito para pintar. Não tenho dúvidas nenhumas sobre isso e acho que quem pensa que já chegou ao "ponto alto" do graffiti deve respirar fundo e deixar o ego descer.

8 - Algo que queiras dizer a quem começou há pouco tempo?

Há miúdos novos que começam a pintar e revejo-me neles. Ainda no Meeting tive a falar meia-hora com um miúdo porque senti mesmo que valia a pena, via-se o respeito que ele tinha por quase toda a gente que estava ali a pintar, via-se o interesse dele, a humildade e a força de vontade. Mas infelizmente são poucos, infelizmente o que vejo mais são miúdos sem qualquer noção do que está para trás, a dizerem merda em fotologs, sem saberem quem tu és, o que já fizeste, sem saberem como se comportarem e em que lugar estão.

Por isso é que é necessário dividir as coisas: aos do primeiro grupo, que tenham toda a força necessária para seguir em frente, que acreditem neles e que não se deixem ir a baixo por coisas negativas que possam ouvir porque mais tarde vão provar a essas pessoas que elas estavam erradas e com sorte vão ter o dobro do skill que elas tem; aos do segundo grupo, sinceramente, não há muito para dizer porque são esses que daqui a dois ou três anos já cá não estão.




*Fonte: Marca Nacional

5.8.09

Cartel Entrevista

// Vasco Rodrigues



Como já tínhamos prometido, entrevistamos Vasco Rodrigues, o principal mentor do regresso do Meeting of Styles a Portugal após 6 anos. Conhecido no meio pela realização de alguns eventos e de ter estado na linha da frente dos registos que se fizeram ao longo de muitos anos do graffiti português, Vasco regressa finalmente a Portugal para, mais uma vez...fazer algo de positivo pelo graff nacional.



// Vasco, estás de volta ao panorama do graffiti nacional. Muita gente nova no activo, uma geração de writers que não conhecem o teu nome e que não sabem aquilo que fizeste pela cultura. Reaviva-nos a memória, diz-nos quem tu és e o que já fizeste pelo graffiti português.

Em primeiro lugar, muito obrigado pelo convite. Sou um jornalista nascido em 1971 e que pelo amor ao graffiti e o desejo de fazer com que ele fosse reconhecido lá fora, organizei grandes eventos, sempre com nomes estrangeiros a pintar ao lado dos portugueses.

// Apesar de nunca teres pintado segues muito de perto e foste parte activa no desenvolvimento da cena do graffiti português. Como começou esse interesse e exactamente há quantos anos atrás?

O meu envolvimento no graffiti português começou em 1994, quando comecei a tirar fotos do que ia vendo pela zona de Carcavelos e Belém. Um pouco depois tive a sorte de apanhar a PRM a pintar no saudoso Hall of Fame de Belém, falei com eles e a partir daí comecei a organizar várias coisas, desde eventos a workshops, trabalhos, etc. Acabava eu por dar a cara por quem pintava à margem da lei.

// Entretanto foste para Londres e obrigatoriamente "abandonaste o barco", ficando mais distante e menos activo por cá. Mas no Reino Unido, durante este período de tempo, mantiveste o teu interesse no graffiti? De que forma?

Fui realizar um sonho antigo, que era morar em Londres. Mas já antes de ir me tinha desligado da organização de eventos de graffiti em Portugal, muito por culpa de quem pinta e das invejas e intrigas que apareceram entretanto. Hoje, com quase 5 anos de afastamento, chego à conclusão que as coisas aconteceram porque tinham que acontecer. Muitos writers queriam seguir o caminho profissional e se calhar a minha presença seria incómoda. Não abandonei barco nenhum, senti que fui atirado “borda fora”. No Reino Unido tentei sempre manter-me a par do que acontecia, indo a inúmeras exposições, onde conheci muitos dos meus ídolos old school.

// Voltas bastantes anos depois para abraçar um projecto que não passava por Portugal desde 2003, o melhor evento do mundo de graffiti. Onde se realizará o Meeting of Styles Portugal 2009?

Ao manter-me informado sobre o que se passava em Londres acabei por voltar a falar com os organizadores alemães do Meeting of Styles, que como te lembras organizei pela primeira (e única até agora) em Portugal, nas Caldas da Rainha. Ao vir a Portugal de férias fui confrontado com uma proposta de ser eu a organizar o Seixal Graffiti 2009, sob pena de deixar de se realizar. Depois de falar com quem o estava a organizar até então, e de ter a garantia que essa pessoa não estaria interessada em continuar, aceitei e imediatamente anunciei à autarqui do Seixal que este ano colocaria o evento no panorama mundial de graffiti, garantindo novamente a presença de Portugal no Meeting of Styles.

// E quais os apoios que tens neste momento?

O Meeting of Styles, por ser um evento internacional, tem sempre os mesmos patrocinadores para todas as etapas: a Montana alemã e a Carhart.
Em Portugal temos, para alem obviamente da Câmara Municipal do Seixal como Alto-Patrocinador, a Ecko, a New Era e a Station Hip-Hop Shop. Estamos ainda à espera de dois ou três outros.

// Sabemos que vais restringir o número de presenças de writers nacionais o que, embora muitos não aceitem nem compreendam, é absolutamente essencial para o sucesso de um evento. Quantos writers nacionais vão estar presentes e...quem são?

Sim, é verdade. Uma das maiores queixas da Câmara em relação a eventos passados foi a confusão que se passava na parede. O convite desmedido a tudo e todos acabava por reduzir a quantidade e qualidade do Concurso de Graffiti, que é a génese do Seixal Graffiti. Um Concurso que não presta é meio caminho andado para a morte do evento.
A minha experiência diz-me que menos writers garante mais qualidade e maior fluidez. Acaba por dar também mais espaço disponível para que cada convidado possa meter toda a sua criatividade em palco.
Quanto aos writers que estarão presentes, serão 20 portugueses e 4 estrangeiros. Infelizmente chegou aos nossos ouvidos que existe já um certo boato que certas instituições estariam muito interessadas em saber já os nomes e tags de quem vai pintar no evento, pelo que me reservo no direito de não os divulgar. Mas são aqueles que mais nível terão neste momento em Portugal (eu sei que isso é subjectivo), pelo que a qualidade está garantida.

// Um evento como o MOS é sempre alimentado com presenças internacionais, algo que está praticamente garantido nesta edição. Queres avançar alguns nomes?

A presença internacional está 100% garantida. Posso avançar já com a confirmação da presença dos writters old school londrinos ROUGH e SYSTEM. Os outros dois já estão garantidos mas só quero confirmar quando tiver os bilhetes de avião deles na mão, pelo que teremos de aguardar uma semanita no máximo.





// Enquanto organizador, o que esperas realmente do Meeting of Styles? Quais as tuas expectativas?

Espero que o Meeting of Styles seja um acordar internacional para a qualidade do graffiti português, que parece ter estado adormecido.
Espero que as pessoas abracem a oportunidade de pintar com pessoas que dificilmente vão voltar a poder pintar, e que não se preocupem apenas em deitar para a parede um logo, mas que falem, discutam, e no final englobem os estilos de todos e façam uma parede para ninguém por defeito.

// Estando dentro do universo mundial do graffiti há muitos anos, acreditas que Portugal tem potencial hoje em dia para estar ao nível da Espanha, da Alemanha, da França, do Reino Unido...?

Sem dúvida alguma! A única coisa que falta é a divulgação! Continua a não existir uma revista a sério de graffiti em Portugal, uma Graphotism tuga. As marcas de street-wear fazem publicidade em revistas de moda, porque não canalizar esses apoios para algo que faz falta para nós?
Basta olhar para o sucesso que o Vhils está a fazer em Londres, desde que decidiu ir para lá viver, para se entender o que falta ao graffiti nacional. Falta pegar nas latas e passear, fazer contactos, networking, aparecer em eventos lá fora.

// Quem são para ti os writers nacionais que realmente estão a dar cartas e a honrar o graffiti português não só cá como lá fora?

Sem dúvida o Vhils ultrapassou tudo o que se esperava dele e transformou-se num artista com A grande. Do que tenho visto (e que é pouco, confesso), vejo um nível muito bom nos que pintam à muitos anos. Não tenho conhecimento de causa diário para dizer quem está a pintar melhor.

// Para terminar, convido-te a deixares uma mensagem. Não é habitual este tipo de abordagem mas a tua experiência, conhecimento e valores assim o justificam. Até porque começa a fazer falta um testemunho de quem realmente sabe perante aqueles que julgam saber tudo...

Espero que quem começa agora a pintar que se lembre que o graffiti é sinónimo de amizade, camaradagem, de fazer contactos e pintar com amigos. Espero que quem já pinta à muitos anos nunca se esqueça que já foram aquele puto que comprou a sua primeira lata e que quer aprender com os seus ídolos. E espero que todos nós aproveitemos ao máximo estes eventos que acabam por ser cada vez mais raros e que tenhamos gozo naquilo que fazemos.

17.4.09

Mr.Dheo

// Ágora



Entrevista do Mr.Dheo ao Jornal Ágora, suplemento do Jornal de Notícias do dia 10 de Abril.

*Fonte: Hipopulsação

3.11.08

Cartel entrevista MAR



// Há quanto tempo te iniciaste no graffiti e como?

MAR: Bem, antes de mais agradeço este convite, e aprecio o teu interesse pelo trabalho que já venho a desenvolver há cerca de 10 anos. Iniciei-me em 98 juntamente com o Klit, o nosso mentor na altura era o Roket, old school writer de Almada, que nos fez pegar em latas pela primeira vez.
Até então tinha apenas muita curiosidade e muitas fotos de paredes, por exemplo do Hall of fame das “Amoreiras”, dos PRM ao pé de Belém, do Uber em Algés, e muitos mais. Foi um começo engraçado, porque estávamos todos na nossa hora de almoço (isto porque trabalhávamos todos juntos num estúdio de animação nas Olaias) e foi só descer e tinhamos um muro de um ginásio virado para a linha do comboio. Fiz umas letras, as minhas primeiras letras, percebi logo que não era por ali, voltamos lá depois de alguns dias para continuar a nossa obra e fomos apanhados pela policia, mas não se passou nada - o normal. Demos a nossa identificação mas como o proprietário não apresentou queixa estou até hoje sem receber nada e acho que passou á história.
E assim foi até hoje, sempre a trabalhar agora de uma forma mais séria e profissional, uma evolução constante à procura da consistência gráfica numa parede, numa tela, ou apenas numa simples folha de papel.




// Quais são para ti as principais diferenças entre essa altura e os dias de hoje, não só no teu trabalho pessoal como no graffiti em geral?

MAR: Na altura, em 98 - eu já pertenço à 2º geração do graffiti em Portugal - começava o boom, houve muita gente que começou a pintar e nessa época, falo aqui em termos pessoais, fazíamos pelo “rush”, pela krew, pintava muito mais à noite e fazíamos fins-de-semana em Almada na “Galeria” onde surgiu um interesse pela parte mais técnica, pelas ideias, pelos ideais, pelo convívio. Aí percebi que o graff podia evoluir para um lado mais de arte.
O que eu sinto nos dias de hoje é que não há grandes diferenças do passado, os que continuaram, os que se dedicaram só agora estão a ter um retorno em termos de evolução e de objectivos alcançados, o tempo e o trabalho feito é o melhor
barómetro de qualidade. Acho que houve uma maior apropriação do graff por parte das marcas e o graffiti neste momento está com uma indústria brutal por detrás, que assegura eventualmente parte da sua continuidade. O que por um lado pode prejudicar, mas por outro mantém no vivo em termos de movimento existente numa cultura social que por vezes sofre altos e baixos. Cabe a nós, os que cá ficam dar um bom destino a esta arte urbana.
Em relação ao meu trabalho, sinto que evolui naturalmente, mais maduro e com uma visão mais capacitada para conseguir distinguir o bom do mau e compreender o caminho a seguir.


// Hoje em dia vives do teu trabalho criativo, o que em Portugal não deixa de ser quase uma excepção à regra. Quais foram aqueles que consideras os passos mais importantes para teres alcançado esse "estatuto"?

MAR: Eu acho que não existe nenhuma fórmula mágica, sempre sonhei, sempre acreditei, sou muito optimista, estou rodeado de bons amigos e com muito, muito trabalho e persistência, consegues. Eu próprio por vezes sinto-me cansado mas não olho para trás nem me deixo abater, porque as escolhas que fazes tens de ser responsável por elas e responder com trabalho. Adoro pintar.



// O teu trabalho caracteriza-se pelo uso de bastantes personagens num estilo que te vem diferenciando dos demais. Mas existe muitas vezes o rótulo de que quem faz bonecada e não faz com regularidade letras não é o "verdadeiro" writer. O que respondes a isso?

MAR: O graffiti sempre se fez acompanhado de personagens. Claro que a base do graffiti são letras e a escrita, mas como tudo na vida tem uma evolução o graffiti não foge a regra e como tal as minhas personagens funcionam como uma ponte visual entre o espectador e a obra.
Considero que não sou um writer completo, mas neste momento desempenho o meu papel numa vertente que o movimento tem que é o “hall of fame”. E pesquiso muito as formas das personagens como outros pesquisam as formas das letras, importa o sentido que dás e como te inseres num fame, já existem tantos writers a fazer letras que quis ir pelo lado que me desperta mais sensações.




// És o grande responsável pelo evento Seixal Graffiti, que vem sendo nos últimos anos o melhor meeting nacional de graffiti. Quais são as maiores dificuldades que encontras para tornar ano após ano este evento viável?

MAR: As maiores dificuldades que encontro é uma instabilidade financeira por parte da Câmara Municipal, o nosso principal apoio. Não digo isto de uma forma perjurativa, visto que tem sido um grande ajuda ao longo destes anos todos. Sempre contei com a sua disponibilidade, mas ás tantas, talvez por ser um evento já mais do que feito, parece existir um certo desleixo organizacional, uma inércia orçamental. Como única ajuda financeira para colocar este evento de pé, e estando sempre dependente dessa ajuda, existem prazos que não são cumpridos e isso não pode acontecer. Estamos sempre até a última para saber das latas, das viagens de writers convidados, etc. Contratempos esses que colocam em causa este evento.
Talvez pelo facto de querer manter este evento muito “underground” sem o festival de marcas, também dificulta um pouco, mas gostava de manter essa filosofia.


// Sentes-te de certa forma desapoiado não só por quem deveria suportar e patrocinar este evento, mas também pelos writers que nem sempre conseguem ter a noção de que o teu esfoço não é em prol pessoal uma vez que nem dinheiro ganhas com isso, mas em prol do graffiti nacional?

MAR: Eu chego à conclusão que é sempre assim, haverá sempre vozes da revolta, mas é como te digo, são apenas vozes que desaparecem no ar e não são sustentáveis pelo simples facto de serem apenas vozes. Não existe nada físico, nada que possa ser passível de haver um confronto de ideias, um comparar de trabalho feito. Isto respondendo aos mais incomodados, mas penso que de uma forma geral existe de facto uma concordância entre os writers e isso veio com o tempo, de que colocar de pé um evento como este exige muito esforço e dedicação por parte de todos, não só da minha parte. Mas precisamos de nos juntar para nos levarem mais a sério.
A minha tarefa mais difícil no Seixal Graffiti é sem duvida uma gestão de egos, que isso sim te de ser ultrapassável. Porque não pode nem deve existir esses conceitos de espaços e de quem pinta com quem num meeting, devemos dar menos importância a certas e determinadas coisas. Eu sinto que o que faço é um pouco em prol do graffiti em Portugal, em prol da sua existência como arte e se fosse para ganhar dinheiro já tinha desistido à muito, aliás, perco dinheiro todos os anos.
Eu acredito que este tipo de evento, com tudo o que ele acarreta (seja bom ou mau), é o que faz a evolução.




// Na edição deste ano existiram alguns contratempos, os quais não podias evitar. O que aconteceu para os writers internacionais não terem marcado presença?

MAR: Foi muito simples. Como falava na questão anterior, as verbas que nos são atribuídas por parte da Câmara simplesmente desapareceram a duas semanas do evento, e os writers convidados já tinham sido contactados. O que acontece neste casos é que quem viaja para pintar como convidado gosta de ter tudo tratado, com viagem paga, etc, e não foi o que aconteceu. Sem dinheiro não se consegue fazer nada. E como eu não tinha para colocar à frente nem queria, optei por cancelar a sua vinda este ano, com muita pena minha. Tivemos alguns estrangeiros muito bons que já cá estavam em Portugal, como foi o caso do Onesto do Brasil e conseguimos um mural que este ano bateu o record com cerca de 70 writers a pintar no Seixal.



// E de que forma reages ao que aconteceu durante a noite..? (ver post "Seixal Graffiti 2008 ver.1")

MAR: Existem pessoas que de facto ainda não perceberam a força que o graffiti tem e esses actos apenas servem para reforçar a minha vontade em manter este evento. Eu sou teimoso e não vou abaixo facilmente, tudo o que essas pessoas ou pessoa fizeram foi unir ainda mais os writers para fazer mais e melhor. Tivemos uma tempestade no domingo, e mesmo quem não conseguiu acabar voltou na segunda para terminar, o que eu acho de louvar e dou os meus parabéns por querer ver terminado o trabalho. Quando isso acontece é porque existe um gosto pessoal e uma vontade enorme que não será certamente abalada por actos cobardes como estes.



// Seixal Graffiti 2009...vai ser diferente?

MAR: Vai! Tem de ser diferente. Vamos ter uma reunião com a Câmara para perceber o que correu mal, o que correu bem. Para o ano vou colocar algumas regras e pârametros que devem ser respeitados, caso contrário também não faço este evento. Existem erros que podem ser evitados, como foi o caso dos andaimes, do número de latas e artistas convidados, etc.



// Por último e só para dar um cheirinho...VSP 2008, queres adiantar alguma coisa?

MAR: A VSP2008 tem inauguração marcada para o dia 27 de novembro, na Rua do Norte - Bairro Alto, que depois se desdobrará em outras actuações em sítios depois a divulgar. Vamos ter writers convidados, que não irão só pintar mas também falar um pouco da sua experiência, e outras surpresas. Estão todos convidados a aparecer. Podem consultar a programação no site da Visual Street Performance.
E também quero dar-te os parabéns por este fantástico trabalho que tens feito de amor à causa e como interpretas esta complexa e apaixonante arte. Continua o bom trabalho


25.8.08

Cartel entrevista UBER



// Porquê "Uber" e em que ano surgiu pela primeira vez na rua?

UBER: Surgiu a primeira vez na rua por volta de 94, não tenho bem a certeza, foi em forma de tag mas em casa já andava de volta das letras UBER à muito tempo. Primeiro na ideia de "urbe" e depois "uber" que quer dizer "sobre" em alemão e "fertilidade" em latim... a razão principal foi a forma das letras juntamente com o significado do ficar "up".

// É uma pergunta clássica mas as vivências são sempre distintas. Como era a cena do graffiti em portugal nessa altura?

UBER: Tranquila, sonhamos muito, pelo menos eu... antes das marcas, tu sabes...

// Mas o teu trabalho é inconfundível e é difícil um writer conseguir ser versátil mantendo sempre um estilo original e que se distingue dos demais...Numa altura em que a internet não existia e as revistas eram praticamente uma miragem, quais as principais fontes que encontraste para a tua evolução?

UBER: Viajei. Fui a Paris, a meca do graff europeu na altura, e estive lá nos bairros da periferia com uns amigos do Obey (na altura Kase), Barcelona, Londres...tirei fotos e comprei revistas, mas a minha influência foi sempre mais exterior ao graff e ao mundo Hip Hop. Mais BD onde era aficionado pela cena brasileira, "chiclete com banana"...



// Partilha uma daquelas experiências que só se viviam mesmo na velha escola...

UBER: Hmmm.... estar a pintar em Campolide (wall of fame) e passar o Sampaio (na altura presidente da Câmara) com o seu filho, e ficaram a observar-me a pintar e a comentar o traço e tal...eheheh

// Embora inactivo desde 2000 continuas uma referência presente no graffiti nacional. Paraste...porquê?

UBER: Parei por múltiplas razões, a cultura de consumo tinha revirado a cena genuina do graff e cada vez existia menos noção de conjunto, estava tudo disperso sem impacto positivo. Fui para fora e aproveitei para estudar a coisa, parei de fazer o que fazia mas estou bem activo e a iniciativa "As paredes do bairro" é exemplo disso (http://futurodasparedes.wordpress.com/). De resto como autor ando aí, faço as minhas cenas mas descoladas de "Uber" claro.

// Mas nestes oito anos, e estando atento ao que se vai fazendo e assistindo até a um novo "boom" em 2002/2003...a vontade de voltar ao activo existiu de certeza. O que faltou nesse momento para o regresso?

UBER: Estava em Roma, noutras danças...

// Como vês o graffiti português hoje? Achas que temos writers com qualidade para um reconhecimento mundial?

UBER: A cena hoje passa muito pela compreensão do que é ser writer, se implica fazer letras e pintar com a lata de spray ou se é uma atitude de apropriação do espaço publico de uma forma visual...eu fiquei bem contente quando vi a VSP, é pessoal que reflecte sobre o graff e a street art, incondicionalmente.

// Só podia terminar com uma pergunta dificil. Vamos ver novos "Uber's" ou não?

UBER: Eles andam ai...