2.9.09

Tags

» SINOPSE

Recentemente publicamos o vídeo Terroir Graffiti, fruto de um projecto da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa que propôs uma exposição / intervenção e debate sobre graffiti. Um dos artistas activos neste projecto, a par de Craft, Naxa, Anabela Santos e Ricardo Reis foi Ficto.

Esta é a sinopse desse trabalho apelidado de Tags.



A palavra que surge em maior destaque no Diagrama, é a palavra Tags e que surge como título deste trabalho. Não raras vezes, é feita a dissociação dos conceitos tag e graffiti, principalmente por pessoas externas ao graffiti.
Aproveito este diagrama, que tenta definir graffiti, para reforçar a importância dos tags no graffiti.

Ao longo do tempo tenho sempre defendido que os tags são a origem do graffiti tal como o conhecemos, sendo por isso um conceito que se encontra dentro do graffiti. O tag é uma vertente do graffiti, o graffiti tem origem no tag. Quem ficar atento ao fenómeno, poderá constatar, que o tag influência muitas vezes o estilo de graffiti praticado noutras vertentes, assim como um estilo de hall-of-fame ou de bombing poderá influênciar a forma como se constroi um tag, existindo portanto uma relação recíproca entre o tag e as restantes vertentes.

Considero o tag uma das vertentes mais díficeis de desenvolver dentro do graffiti, uma vez que se trata de uma disciplina bastante minimalista, e que não se pode socorrer de tantas artimanhas estilísticas e elementos decorativos como outras vertentes. Alguns são os writers que desenvolvem trabalhos de grande qualidade no hall-of-fame ou noutra qualquer vertente, mas que na área dos tags deixam bastante a desejar. É talvez uma vertente a que todos têm acesso, e através da qual, grande parte dos writers contacta pela primeira vez com o graffiti. É uma área, no entanto, onde só alguns writers acabam por ter um trabalho de destacada qualidade.

Não quero inciar a discussão sobre o que é que define um bom tag, mas frequentemente é posta em causa a estética dos tags ou assinaturas, quando se discute o graffiti. Existe algum desconhecimento quando de tags se fala como um todo. A discussão prioritária é a superficie onde é feito o tag, devendo a questão estética passar para outro plano de discussão.

Se pudermos falar de um património de graffiti, certamente teremos que reconhecer a importância de tags feitos por writers pertencentes às crews PRM, NCW, MWA, GVS que surgiram em algumas zonas da cidade a meio da década de 90. São diversos os motivos que dão interesse a estes tags.

Estamos a recuar a uma época em que pouco graffiti existia em Portugal, e onde certamente a maioria das pessoas desconhecia até a palavra, que no fundo dava nome a algo que quase ninguém tinha visto. Se por um lado o hall-of-fame levantava mais questões legais do que éticas, certamente não foi fácil iniciar uma vertente como o tagging, que se adivinhava desde início polémica.

Hoje podem até parecer tags bastante tímidos, mas na inexistência de qualquer vestígio de graffiti, estes eram completamente dissonantes da restante paisagem arquitectónica. Acrescentando-se o facto de nesta altura o graffiti ter um reduzido número de praticantes, o que trazia a possibilidade, mas também a responsabilidade, de decidir que imagem do graffiti transmitir à restante sociedade. O reduzido número de praticantes dificultava também a preservação do anonimato dos seus autores.

A abordagem ao graffiti pelo tag comprometia o esforço desenvolvido no sentido de liberalizar ou legalizar paredes para a prática de hall-of-fame. Isto mostra que apesar de todos os riscos, o tag foi considerado por estes writers uma vertente bastante importante para cumprir os pressupostos incutidos pela cultura do graffiti.

Estes tags são interessantes porque possuem uma correspondência com a estética da altura, o que permite defenir um marco temporal para o seu aparecimento. O próprio desenho das letras já permite datá-los, mas, numa altura em que não eram ainda comercializadas latas para um seguemento de graffiti, mas sim para um seguemento industrial, o tipo de spray utilizado, certamente confere a estes tags uma expressividade quase impossível de reproduzir nos dias de hoje.

No final da década de 90/ início desta década, gostaria de destacar o trabalho de crews como GVS, FYA e SKTR. Fruto talvez de algumas viagens, e do contacto com writers oriundos de outros países, pode-se dizer que estas crews massificaram o tagging em Portugal, questionando limites éticos existentes, embora reproduzindo o que já tinha acontecido um pouco por toda a Europa.

Tornou-se habitual a utilização de caps que permitiam uma maior espessura de traço, assim como também passou a ser comum o uso de marcadores, alguns com vários centímetros de expessura, e que já eram comercializados nas primeiras lojas dedicadas ao graffiti. Ainda assim esta importação não deixa de ser meritória. Intencionalmente ou não, acabou por fomentar talvez a primeira vaga de moda em relação aos tags.

Destaco talvez a zona de Benfica, onde a presença dos tags se fez sentir em todo o edificado, mobiliário urbano, e nos transportes públicos que circulavam naquela zona. Muitos foram os writers que tiveram uma presença bastante efémera no graffiti, nunca trabalhando além do tagging; para outros foi o ponto de partida para o desenvolvimento de trabalho noutras vertentes, o que reforça a ideia que na maior parte dos casos o primeiro contacto com o graffiti é feito através do tag.

Desta época, até aos dias de hoje, o tag tem evoluído. Se falarmos de quantidade, certamente aumentou. No entanto eu não consigo encontrar uma explosão tão grande como no caso que referi anteriormente. Mas tendo como referência esta explosão no final da década de 90, rapidamente percebemos que existem vários writers a fazer tags há pelo menos 10 anos, e que se têm apresentado bem mais ágeis do que qualquer política de limpeza. Com o aumento constante dos tags, são muitos os que gradualmente têm extremado as suas atitudes, fazendo mais e maior. Provavelmente quantidade e tamanho são os factores que vão conferindo um maior destaque.

Existem poucos estudos e estatísticas nesta área, mas se para muitos a presença no graffiti é éfemera, em contrapartida todos os anos existem novos writers a passar por um processo de inciação. Podemos então talvez especular sobre um ligeiro aumento constante do número total de writers. Alguns dos novos writers já se iniciam com o objectivo de fazer uma grande divulgação do seu nome através do tagging. Este aumento, aliado ao extremar de posições, aos factores mais e maior, faz com que o número de tags na cidade seja também ele crescente, e tenha cada vez mais um maior impacto.

Desde meados desta década temos assistido ao aparecimento de outros materiais no graffiti, que não o aerosol. Este facto reflecte-se também ele no tagging. Rolos para aplicação de tinta plástica e compressores de tinta são os que mais se têm feito notar.

São processos que permitem trabalhar o tag numa nova escala, e intervir em sítios mais altos. Dão-lhe também uma nova expressividade através da tinta que escorre. É fácil encontrar tags com a marca da tinta que escorre nas fotografias de graffiti dos anos 70 em Nova Iorque. Penso que esta técnica durante muitos anos foi um factor depreciativo na avaliação de um tag, como se indiciasse uma falta de habilidade e competência para trabalhar com ferramentas como o aerosol. Vemos então actualmente a técnica dos escorridos recuperada e ampliada, quer através da utilização dos novos materiais, quer através dos sprays ou marcadores.

Durante várias décadas, o aerosol foi o material fétiche do graffiti, talvez devido à sua difícil aquisição, à sua dificuldade técnica, ao seu fácil transporte e ao aspecto inconfundível que caracteriza uma pintura a spray. Este material despertou certamente o interesse de muitos por graffiti. Hoje, por diversos factores, como a banalização da comercialização de latas de spray, e o seu preço elevado, (embora continue a ser o material mais utilizado), o monopólio do aerosol caiu. A novidade é agora materiais que desde há muito estavam disponíveis no mercado, a maioria até antes do aparecimento do próprio graffiti, mas que só foram adoptados à medida que o dogma graffiti=sprays foi perdendo força. A aniquilação deste dogma talvez seja uma das primeiras consequências do aparecimento do chamado pós-graffiti.

Surgem também novas abordagens: a pixação, estilo de tag originário da cidade de São Paulo, serve agora de inspiração por toda a Europa. A tipografia e caligrafia clássicas estão também bastante presentes, trazendo uma maior leitura, permitindo uma descodificação do tag, tornando-o acessível aos públicos externos. Estas influências, aliadas a velhos e novos materiais, tornam a fase actual do tagging bastante interessante, sendo precoce destacar nomes.

Todos os writers, em determinada altura do seu percurso, acabaram por se encontrar com o fenómeno do tagging.


Autor: FICTO

*Foto: Marta Guerreiro

1 comentário:

Drico disse...

boa materia.
legal o comentario sobre a pixação de sao paulo.
sou grafiteiro de sao paulo gostei muito.
salve para os maloqueiros!