20.10.08

AINDA BAIRRO ALTO

// Lisboa: Graffiti, um acto de "transgressão" que pode ser melhor em "paredes legais"

"O graffiti tem por base um acto de transgressão", considera o graffiter MAR, que entende contudo que paredes legais como a galeria de arte urbana inaugurada em Lisboa mostram o lado bom daquela forma de expressão. A limpeza das fachadas do Bairro Alto e a responsabilização dos graffiters ilegais é uma das medidas do plano de intervenção do Bairro Alto, promovido pela Câmara de Lisboa. Para enquadrar o graffiti enquanto forma de expressão artística foi inaugurada na sexta-feira uma galeria de arte urbana na Calçada da Glória, mas a interrogação é inevitável: O graffiti pode ser domesticado?

Para o graffiter MAR, que vive daquela arte há dez anos, a galeria "é um bom começo" e "funciona para mostrar o lado bom do graffiti", embora considere que paredes seriam preferíveis aos painéis que actualmente compõem o espaço. Apesar de MAR considerar que "a transgressão está na base do graffiti", locais onde possa ser realizado legalmente podem permitir criar obras mais perfeitas.

"Nós tentamos provocar alguma reacção, mas é pelo que pintamos, não é pelo sítio onde vamos pintar. Sabemos que há sítios ilegais onde se pinta e que há sítios legais onde se pode pintar com tempo e usando a técnica toda que temos para transmitir uma mensagem", conta. Num espaço autorizado, como a galeria da Calçada da Glória, "cria-se uma peça de arte que as pessoas conseguem apreciar". "Ontem, as pessoas que passavam no eléctrico até batiam palmas", conta. O artista distingue "o bom e mau graffiti" e diz que espaços como a galeria urbana dão a conhecer ao grande público que "nem toda a gente está no mesmo saco".

O Bairro Alto "faz parte do circuito de cidades a nível europeu que são passagem obrigatória por vários writers estrangeiros que querem deixar a sua marca", conta MAR, que prevê dificuldades na concretização do plano de intervenção da autarquia. Para MAR, a conciliação entre a limpeza e o estatuto de "passagem obrigatório para quem faz arte na rua" do Bairro Alto é possível "desde que haja respeito de parte a parte". "É praticamente impossível. Existe tanta gente a pintar, bom e mau, que dificilmente vão querer obedecer a regras impostas, porque a transgressão está na base do graffiti", considera.

MAR começou em "paredes ilegais", mas há dez anos que vive do graffiti, contratado por marcas, Câmaras municipais e particulares, num quotidiano que "não é fácil", mas oferece outras compensações "não em termos financeiros, mas de afirmação como artista". "A arte não é só para uma tela que fica na casa de alguém ou numa galeria XPTO, mas é também aproveitar as paredes da rua como telas e tentar criar qualquer coisa que mexa com quem passa e vê, como arte pública", afirma.

MAR tem por princípio não desenhar letras, "só bonecos e formas" e "usar a plasticidade da própria tinta para passar mensagens positivas". "Gosto de dar a entender que os graffitis não são só feitos por uns miúdos, para estragar, mas tentar chegar às pessoas de uma forma inteligente", explica. Para MAR, pintar graffitis, acto que considera "intrínseco à própria cidade", é "uma afirmação". "Queremos assumir o nosso papel nesta sociedade louca, feita de cidades cinzentas e dar-lhe um pouco mais de cor", conclui.

O plano de intervenção no Bairro Alto inclui a limpeza de fachadas e um protocolo com o Ministério Público que prevê, para casos de flagrante delito a pintar graffitis, a suspensão provisória do processo. Com esta medida, que exige o acordo do proprietário do imóvel danificado e do infractor, o infractor não vai a julgamento, a infracção não consta do seu registo criminal, mas é sujeito a "injunções", que vão desde a limpeza e pintura das fachadas à interdição de frequência do bairro.

A intervenção no Bairro Alto inclui igualmente o reforço de policiamento, um estudo para a instalação de videovigilância, reforço da iluminação e mudança de horários nocturnos dos estabelecimentos comerciais. Esta intervenção, que a autarquia candidatou junto do Instituto de Turismo a financiamento pelas contrapartidas anuais do Casino de Lisboa, envolve um investimento de 1,2 milhões de euros.

*Fonte: Ana Clotilde Correia / Lusa

1 comentário:

Pedro Neves disse...

o que encontrei sobre o assunto online:

http://jornal.publico.clix.pt/magoo/noticias.asp?a=2008&m=10&d=18&uid=&id=280313&sid=55624

http://www.forumnacional.net/showthread.php?p=319174

http://aeiou.visao.pt/Pages/Lusa.aspx?News=200810188904823

http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?article=348232&visual=26&rss=0

http://diario.iol.pt/sociedade/bairro-alto-graffitis-lisboa-cml-mp-portugaldiario/1001641-4071.html

http://ultimahora.publico.pt/noticia.aspx?id=1345890

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1346496

http://www.portugalzone.com/index.php?news=32767

http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/e1fd3be794b40f10ef1ba7.html


a minha opinião:

Após o encontro "futuro das paredes do Bairro Alto" realizado em Julho na ZDB, sentiu-se que seria necessário mais tempo de diálogo apesar dos 2 dias intensos de debates e partilhas.



Em termos práticos nesse encontro foi assumida uma posição da CML que afirma, SEM QUE POSSA SER COLOCADO EM DISCUSSÃO, uma estratégia para o Bairro Alto, a limpeza de 1 rua e uma travessa (rua do norte, travessa da espera) a distribuição de kits de limpeza pelos moradores e comerciantes, e eventualmente a promoção de mais debates...Proposta para mais debates foi desenvolvida e aguarda resposta.



Desde Janeiro 2008 que estou em contacto com os técnicos da CML a tentar deixar clara uma mensagem:


PINTAR AS PAREDES DO BAIRRO ALTO DE "BRANCO" É DEITAR DINHEIRO PARA A RUA,


Tem que ser feito um trabalho a médio longo prazo onde se ampliem as mentalidades dos praticantes das intervenções, comerciantes, técnicos e cidadãos tendo em vista o encontrar consensos, os quais terão como consequência um espaço público mais equilibrado e participado.



As paredes estão a ser pintadas de branco, e em vez de debates sugeriram numa primeira instância a realização de uma galeria de arte urbana na rua do elevador da glória, o qual foi visto como um passo a meio caminho de ambas as partes, ou seja não é um acto genuíno de street art/ graffiti, pois para alem de ser uma encomenda é feito em suportes propositadamente colocados para o efeito, porem do lado do município é uma forma de demonstrar que existem alguns tipos de intervenções que são bem vindas e de reconhecido valor.

Esta pequena "farsa" irá acontecer dias 16, 17 e 18 de Outubro das 18h à 1h na rua do elevador da glória, na expectativa que a performance agrade e abra as portas para os debates e promoção da genuina criatividade de qualidade no espaço urbano, de que o centro histórico de Lisboa tanto precisa.