10.3.08

Livro "Visual Street Performance"



VSP – Visual Street Performance, é a primeira abordagem séria a ser publicada em formato de livro sobre um colectivo de artistas ligados ao graffiti e à arte urbana em Portugal.
Trata-se de um olhar documental sobre o trabalho e o percurso dos artistas que compõem o colectivo do mesmo nome, que se tem apresentado sob forma de exposição anual em Lisboa: HBSR81, Hium, Klit, Mar, Ram, Time e Vhils.

A VSP tem como objectivo promover o alargamento do âmbito do trabalho destes artistas urbanos a espaços interiores, assim como promover o seu trabalho junto de um público mais abrangente.

O livro, um projecto de Miguel Moore e Luís Cruz, faz o balanço do trabalho individual e colectivo dos artistas, apresentado nas exposições dos anos de 2005 e 2006.

Nas cerca de 300 páginas que o compõem, o livro começa por contextualizar o panorama do graffiti e arte urbana à escala global, enquanto alicerce para abordar o contexto português. Neste último, serve-se de uma curta perspectiva historial de modo a enquadrar o percurso e as vivências dos artistas responsáveis pelo colectivo VSP, e conclui traçando o perfil de cada um destes. Uma obra documental de natureza visual e textual.

Preço com portes de envio:

Portugal - 36.5€
Europa - 44.5€
Resto do Mundo - 53.5€

Shop online (e não nas fnac's) @ www.visualstreetperformance.com

Serk

Ferreiras, Albufeira - 2008

8.3.08

Creyz Action

Amoreiras, Lisboa - 2008

Sphiza

Muro Inglês, Porto - 2008

7.3.08

Dexa

Bom sucesso, Porto - 2008

5.3.08

Anty - Entrevista "IV Sreet"



"ANTY – A ESSÊNCIA DA ARTE URBANA"



Mais uma vez contamos com o testemunho de um writer do Norte do país, daqueles que já acumulam uns aninhos nisto, com muitas histórias para contar e um portfólio vasto e repleto de qualidade.
A mensagem é positiva e a boa disposição uma constante, como Anty diz “É arte, meus senhores!”


IVSTREET: Conta-nos um pouco da tua história. O que te levou a enveredar pelo graffiti?

Anty: Acho que quase como toda a gente foi o gosto pelo desenho e pela pintura, e uma grande vontade de me expressar. Antes de começar a pintar já curtia Hip Hop, e foi a ver os videoclips na MTV e a desfolhar as poucas revistas de Hip Hop e graffiti que chegavam a Portugal que se implantou este bicho dentro de mim.
Depois veio a compra das latas (risos)… A minha mãe perguntava para que é que serviam e eu dizia-lhe que era para pintar a bicicleta (risos). Em vez disso a linha de comboio de S. Mamede é que era pintada…
Houve momentos em que tive de deixar de pintar devido a certos problemas, mas o bichinho ficou sempre cá dentro. Hoje, a minha mãe é umas das pessoas que mais me apoia nesta arte.


IVS: O tag “Anty” de onde surge?

A: Anty surge de um brincadeira (risos) … e acabou por ficar.

IVS: O que te inspira e leva pintar?

A: Neste momento tudo serve de inspiração, desde a revista que se lê à série que passa na televisão, é o dia a dia…
O que me leva a pintar é aquela vontade de fazer algo diferente e um dia bem passado com os amigos na rambóia (risos).


IVS: Que peso é que o graffiti ganhou na tua vida?

A: Neste momento muito, pois tento fazer da pintura de aerossol a minha profissão, juntamente com a decoração de interiores e a aerografia. E mesmo que não fizesse nada disto continuava a ter muito, pois o graffiti é algo que me mantém acordado para a vida, leva-me a viver o dia a dia reparando em todos os detalhes de cada rua, faz-me estar atento a tudo o que se passa à minha volta.

IVS: Encaras o graffiti como trabalho ou continua a ser o teu passatempo favorito?

A: Normalmente separo as coisas e enquanto trabalho até digo que são pinturas de aerossol, pois um trabalho é algo que te pedem e por mais que tu dês o teu cunho pessoal é sempre um trabalho pedido, estás sempre um bocado condicionado. Enquanto que no graffiti, na rua, na fábrica ou em qualquer outro sítio, ele é teu e tem o teu conceito, é aquilo que tu pensas, é aquilo que estavas a precisar de pintar no momento, seja um lettering, um cartoon ou até mesmo um background para um hall of fame.



IVS: O facto de seres writer já fez com que as pessoas olhassem para ti com algum preconceito?

A: Não vou dizer que não, pois estaria a mentir. Mas nada que me aflija (risos).

IVS: Achas que é dado o crédito adequado aos writers, ou pelo simples facto de se expressarem através do graffiti continuam a ser subvalorizados?

A: Continuam a ser subvalorizados, pois continuam a ser aqueles miúdos que andam para aí a fazer uns rabiscos nas paredes.
As pessoas só mudam de opinião depois de nos conhecerem e de verem o que é o graffiti, de apreciarem o trabalho que dá pintar um fame e a dedicação que damos a cada peça… É arte, meus senhores!


IVS: Até onde é que o graffiti já te levou? Queres destacar algum lugar em particular?

A: Para já, viajar por Portugal e estrangeiro e conhecer montes de pessoas, pois uma das boas coisas do graffiti é mesmo isso, conhecer pessoas em todo lado, arranjar casa onde ficar e usufruir ao máximo das coisas com menor custo possível.

IVS: Pelo que soube, já tiveste uma viagem ao estrangeiro, que ideias tiraste dessa experiência?

A: Sim, fui convidado para pintar na Holanda.
Foi fantástico, uma realidade diferente apesar de ser mais difícil de pintar. A mentalidade é outra e vês pessoas a trabalhar tatuadas e com piercings, sem medo e sem receios de serem reprimidos.
Espero que mais oportunidades apareçam.


IVS: Achas que o graffiti nacional tem qualidade suficiente para rivalizar com o que se faz lá fora ou ainda temos algumas barreiras a ultrapassar?

A: Acho que estamos em pé de igualdade, seja em bombing, hall of fame ou até mesmo na street art. Só temos é que mudar a opinião de quem pinta, sem medo de arriscar em fazer cenas novas, acabar com as “guerrinhas” e juntarmo-nos todos na mesma parede, numa guerra entre latas e paredes. Acima de tudo acabar com o pensamento de ”Ah e tal, eles lá fora são melhores”.
É a mania do português se deitar abaixo.


IVS: De todo o pessoal com quem já pintaste, tens alguém com quem terias especial gosto em partilhar uma parede, seja ele português ou não?

A: Hum… Isso é difícil, partilho com qualquer pessoa que pinte. Contudo, o pessoal com quem tenho mais à vontade é o pessoal das minhas crews, estamos em sintonia em relação a tudo isto, são aqueles que posso eleger.
Neste momento com quem partilho mais paredes é com o Doc, é com ele que passo mais tempo a nível de graffiti e trabalhos. Conseguimos estar em sintonia.




IVS: Outra das coisas que me constaram é que tu, juntamente com outro writer, venceste um concurso aberto a pintores, arquitectos e engenheiros para dinamizar uns muros existentes junto da Câmara Municipal da Maia. Qual foi a sensação de o vosso projecto ter sido escolhido no meio de tanta concorrência e qual o feedback depois de terminado?

A: Foi boa, é sinal que o nosso trabalho está a ser reconhecido.
A nível de feedback foi bom. Enquanto estivemos lá a pintar foi muita gente apreciar e dar-nos os parabéns pela pintura.
O pior veio depois para receber o prémio e ainda estamos a tratar disso. É tudo muito bonito, mas quando chega a hora de pagar o prémio… é ver quem mais foge! Espero que se resolva tudo o mais rápido possível.


IVS: Projectos para o futuro? Alguma ideia que queiras concretizar futuramente e queiras partilhar connosco?

A: Quanto a projectos tenho alguns, mas o principal é abrir a minha loja de decoração de interiores e fazer uma maior aposta na aerografia, pois é uma das coisas que estou a começar a gostar cada vez mais.

IVS: Mensagem final?

A: Sei lá (risos)… Um bom ano para todos, com muitas pinturas. Partilhem as vossas paredes com pessoal diferente, é a maneira de estarmos sempre aprender, seja com gera que pinte há mais tempo, ou com aquela que pinta há pouco ou até mesmo com alguém de fora do graff, são sempre grandes experiências.
Lutem por aquilo que vocês sonham!


http://subcor.multiply.com/
http://anty01nos.multiply.com/

Entrevista na edição de Março da revista "IV Street" . www.ivstreet.com

1.3.08

Vhils

Fuzz - Vhils

29.2.08

Fynd

28.2.08

Diário de Noticias - Grande Reportagem - 16.02.08



"O VANDALISMO ASSUMIDO E EXPLICADO PELOS VÂNDALOS"

Graffiti e Graffiters

Crime, arte, lixo, vandalismo, "forma de expressão" ou atentado, terrorismo ou cultura urbana? Graffiti é isso tudo.
Falar do fenómeno e falar com quem protagoniza é descobrir um paradoxo. "Graffiti não tem defesa possível", diz um dos jovens que mais tags conta nas ruas de Lisboa. E ele não defende: faz.
Confessa que quando lhe riscaram o prédio não gostou e que puxaria as orelhas a quem o fez - mas ele próprio o faz aos prédios dos outros. Porquê? porque gosta. Porque é proibido, porque "é um jogo", porque se fazem "coisas giras". E porque é muito dificil impedi-lo.
Tudo isso e a ideia de que as cidades são de quem as reclama, de quem as marca.


As cidades riscadas irritam toda a gente. Até quem as risca.

"Graffiti não há defesa possível. è mau, é feio, é sujo e destrói." Quem o diz não é um autarca ou um presidente de junta de freguesia, um nqualquer representante da autoridade ou um vulgar cidadão incomodado com os riscos na sua rua, com o estado deplorável do Bairro Alto ou com a dessacralização de monumentos a golpes de spray. É Keims, 19 anos, dono de uma das tags mais repetidas nas ruas de Lisboa, membro da Reis Crew, um grupo de oito que já custou muitos milhares de euros à CP e ao Metro e cujo portfolio fotográfico, acumulado em anos de actividades cuidadosamente planeadas ("são autênticos jogos de estratégia", diz), soma centenas de imagens.

Paredes, claro, mas sobretudo comboios. Comboios e mais comboios pintados de alto a baixo, janelas e tudo, fotografados dentro dos túneis do metro ou ao ar livre, do ângulo certo para o máximo de efeito, "horas e horas ao frio, sem dormir, à espera que o comboio que pintámos apareça, que a luz esteja certa, o ângulo correcto...Temos de fotografar antes que mandem limpar. No metro temos de captar as imagens dentro dos túneis, porque eles nunca deixam circular uma composição pintada."
Um trabalho à séria, como se fosse um trabalho a sério. No qual se pode arriscar até a vida - Keims não conhecia o jovem que em 2003 morreu eletrocutado na estação de metro do Rato, mas, como todos, sabe da história - e decerto umas bulhas com grupos rivais, umas corridas a fugir da polícia ou dos seguranças, talvez uns abanões e umas cacetadas, uma multa e algum trabalho a favor da comunidade. Um trabalho que custa dinheiro, a três euros a lata e a umas 15 latas o comboio.

"Como é que eu hei-de explicar? Realmente é muito complicado." Nos olhos vivos e boca trocista, Keims exibe a graça do paradoxo. "Tenho plena consciência de que é mau. Mas gosto de passar na rua e ver as tags, o meu nome e o dos outros, e gosto de planear as acções. Gosto do ambiente, do grupo..."
O orgulho no que faz é óbvio na exibição das imagens, na acumulação de gadjets para testemunhar as façanhas, entre máquinas digitais e cd's com muitos megabytes, nas descrições entusiásticas. "O ambiente nos túneis do metro é incrível, o ar é pesado, não se vêem bichos. Não há vida lá em baixo a não ser umas baratas enormes, nunca vi baratas tão grandes." A forma como se conseguem introduzir nessas zonas interditas, com alarmes, circuitos de videovigilância e seguranças musculados assume contornos de epopeia. Como as fintas à polícia chamada pelos funcionários das companhias ferroviárias, "com tiros e tudo", garante Hugo. "São uns selvagens. Nós somos adrenalina fácil para eles, não temos perigo nenhum. Já vi as balas a baterem na chapa do comboio ao meu lado." A sério? O rosto travesso endurece. "A sério. A última vez que isso aconteceu foi em Dezembro de 2006. Estava a pintar um comboio em Alverca."



Em portugal não houve até agora nenhum caso reportado de morte nem de ferimento de graffiters por acção da polícia, mesmo se Keims não é o único a testemunhar perseguições com balas e tareias nas esquadras. Por outro lado, o pedido de informação à PSP sobre o número de ocorrências, detenções e queixas relacionadas com graffitis não é muito bem sucedido. Dois meses após o primeiro pedido de informação, enviado por escrito, a Direcção Nacional da PSP nomeia o subintendente Luís Elias, do "departamento de operações", para "falar sobre o assunto". Números, nada. "Temos na nossa estatística o crime de danos mas há alguma dificuldade em autonomizar os graffitis", assegura Elias. "No entanto, é visível que o fenómeno está a alastrar, não só por uma observação do estado das ruas como também pelo número de intervenções."

O problema das estatísticas, porém, será também devido ao facto de existirem situações em que "jovens são detidos em flagrante delito e depois os lesados, sejam proprietários de prédios sejam as próprias empresas ferroviárias, não avançam com o procedimento criminal. Não querem "chatices"..."
Os perpetradores são sobretudo jovens do sexo masculino. "O típico é o adolescente entre 12 até 20. Mas já encontrámos miúdos de sete e oito anos e indivíduos de 26 anos a danificar monumentos públicos." Soluções? Luís Elias suspira. "Não há soluções. Não se resolve com um polícia em cada rua, de certeza. Há uma questão de princípio que é de ser necessária uma consonância de várias entidades, dos municípios aos proprietários, no sentido de combater este fenómeno. E um dos pontos essenciais é que é preciso limpar, para não dar a ideia de laxismo. É a teoria das janelas partidas..." A teoria das janelas partidas: a degradação atrai degradação, o vandalismo atrai vandalismo. "Não se pode passar a mensagem de impunidade. Se se limpar o que eles fazem eles deixam de fazer. No Parque das Nações, por exemplo, não há graffitis. Os condomínios mandam limpar tudo e há segurança privada." A vidiovigilância, a alteração do tipo legal do ilícito - passando-o do âmbito criminal para o contra-ordenacional, ou seja, à sujeição automática a multa, ou a aplicação sistemática de trabalho a favor da comunidade ("uma medida muito aplicada lá fora é obrigar os miúdos a limpar o que fazem, a detenção só, para eles, é um troféu mas ficam envergonhados se os obrigarem a limpar") são hipóteses de combate aventadas pelo oficial da PSP. Mas algumas, como a da limpeza sistemática, são contraditadas pela realidade: afinal, o metro não deixa circular uma única composição graffitada e não é por esse motivo que os graffiters deixam de as pintar. Há até quem, como Keims, proteste quando as coisas não são limpas: "Não sei o que se passa ultimamente com a CP, parece que não estão para se chatear, limpam mal. Parece que se renderam...Acho mal, gosto de ter os comboios limpos..."
Um jogo de gatos e ratos em que não é sempre fácil saber quem faz de rato. e que não teria razão de ser se o "código do genuíno graffiter", que Luís Elias cita como sendo de "só pintar fachadas de edifícios abandonados", fosse seguido. O problema, conclui, "são as imitações".

Eis uma perspectiva em que Mean, 22 anos, e o oficial da PSP se encontram. "Eu opto sempre por um prédio gasto. Não tenho a ganância de ir para o prédio novo porque a tinta agarra melhor, porque fica mais bonito...Mas a maioria prefere a superfície lisinha, faz mais efeito." Recém-licenciado num curso de análises clínicas, Mean desmente a aclunha no rosto doce e na suavidade do trato. Mas o cadastro, com uma condenação, em 2000, por dano (na estação de Paço de Arcos) e outra por invasão de propriedade, acusa as actividades "extracurriculares" que mesmo a mãe desaprova. "Ela diz "Até está bonito", mas critica. Ainda no outro dia me disse que no comboio não conseguia olhar lá para fora porque as janelas estavam pintadas. Reconheço que é chato - as pessoas nem podem ler o jornal por falta de luz...E não vou dizer que nunca fiz danos na propriedade dos outros, porque não seria verdade".

Foi há uma década, mais coisa menos coisa, que Mean e o amigo Nain, de 23 anos, entraram naquilo a que chamam "uma cultura". "Começou na zona de Oeiras, pintava-se a marginal...Depois veio a cultura de pintar comboios. e o boom, entre 2001 e 2003". A deslocação do graffiti para o centro de Lisboa ocorreu já depois disso. "É a capital, é onde toda a gente passa...É um bocado uma declaração de posse: "Estive aqui". As fachadas do Bairro Alto, integralmente "garatujadas", são o mais impressionante exemplo desses testemunhos de passagem cuja repetição dita, explica Mean, "uma hierarquia de respeito: quem tiver a mensagem mais espalhada ganha".

Uma competição que começou, no último ano, a alastrar a zonas até então praticamente virgens do centro da cidade, como a Baixa, a Avenida da Liberdade, a Sé e Alfama, à medida que a febre dos graffiti foi ganhando mais adeptos. "Realmente nos últimos meses intensificou-se e 'tá tudo tudo pintado", observa Keims. "Até já pintaram o meu prédio. Se apanhasse o puto que fez aquilo dava-lhe um puxão de orelhas". Ao olhas perplexo da interlocutora, exclama: "É o meu prédio!"

Eis a suprema ironia, uma espécie de caricatura da atitude dúbia da generalidade das pessoas em relação aos graffiti: afinal, quem não acha graça a algumas paredes ou muros ou mesmo à imagem impressionante de um comboio pintado de alto a baixo? "Em geral, o cidadão médio só se preocupa se lhe tocar a ele", observa o subintendente Elias. "As pessoas em termos de cidadania tendem a virar as costas". Há até muito "bom cidadão" a incentivar os filhos a esta "expressão". Mean testemunha: "Na novela da TVI Morangos com Açucar a dada altura houve uns episódios em que uns tipos faziam graffiti. Foi incrível o efeito: estávamos na loja das latas e apareciam mães com miúdos de 8 e 9 anos a comprar sprays e marcadores". Um dos donos da Cans Shop, Hugo Baptista, confirma. "Perguntavam onde é que se podia pintar. e eu respondia: em lado nenhum. É ilegal. Mas elas compravam na mesma..."

Até no discurso político a indefinição é a regra. Quando em 2001 o CDS/PP falou em aumentar as penas para os graffiti, surgiram muitas vozes à esquerda a contestar o ataque a "uma forma de arte urbana". E na última campanha autárquica de Lisboa não foi fácil obter repostas firmes dos candidatos sobre a matéria. Sá Fernandes e Helena Roseta defendiam a utilização de "tintas laváveis" nas fachadas (cuja eficácia anti-graffiti só dura umas tantas "riscadelas"), recusando "a via musculada"; e mesmo Telmo correia (PP) admitia o estatuto de "arte" aos graffiti, sugerindo que lhe fossem "reservadas" áreqas apropriadas, com "sensibilização" no sentido de só se pintar aí.

Uma opção que a freguesia de Santa Isabel (bairro entre o Rato e as Amoreiras) abraçou na campanha "Santa Isabel mais limpa", lançada a 14 de Fevereiro. Anunciando a criação de "uma brigada anti-graffiti" para "remover de forma periódica todos os graffitis da freguesia", certificava-se também: "Por outro lado, os graffiti são também uma expressão artística com a sua própria história e evolução e faz parte de uma nova cultura urbana (...) assim sendo será lançado um espaço próprio na freguesia para todos aqueles que queiram expressar a sua arte o possam fazer num espaço apropriado que será limpo frequentemente para que exista espaço para todos".

Uma "solução" que Keims despreza. "Isso a mim, confesso, não me cativa minimamente. Hoje só me cativa tudo o que não é suposto: comboios, metros, rua". Sorri o seu desarmante sorriso de adorável rufia, o aluno da Academia de Belas Artes que de noite enfia a soqueira ("Para se encontrarmos um grupo rival") e vai, de latas na mochila e capuz até aos olhos, assinar o seu nome pela cidade. Desenhar, pintar, decorar "fazer arte". E vandalizar, destruir, causar prejuízo. Os graffiti vivem neste e deste paradoxo. Cada tag na parede repete a mesma pergunta: o que é uma cidade? De quem é? Alguém pode declará-la sua e deixar-lhe assim, sem pedir licença, a sua marca? "A minha mãe diz: vocês agem como ladrões", confessa Mean. "Chama-nos delinquentes. E somos. Somos delinquentes".

Excerto da "Grande Reportagem" do DN por Fernanda Câncio

Koe